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O Brasil tem energia limpa de sobra. O problema é que ela trava no caminho.

Como o diagnóstico de Dieter Helm em The Carbon Crunch explica o paradoxo do setor elétrico brasileiro e por que dados e software viraram o verdadeiro gargalo da transição energética.

Em 2012, o economista britânico Dieter Helm publicou The Carbon Crunch com uma tese incômoda: o mundo estava investindo errado na transição energética. Não porque geração renovável fosse ruim, mas porque construir mais usinas sem resolver a inteligência do sistema não levava a lugar nenhum.

Mais de dez anos depois, o Brasil oferece um caso de estudo perfeito para essa tese.

 

O paradoxo está nos dados

Em 2024, o Brasil registrou a maior expansão da matriz elétrica da história. Foram quase 11 GW instalados em um único ano, com 91% vindos de solar e eólica. A geração renovável já responde por 88% da capacidade do país.

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Fonte: ONS, Instituto Acende Brasil, Volt Robotics.

Ao mesmo tempo, em 2024, 1.445 usinas solares e eólicas foram obrigadas a parar de gerar. O Nordeste, região com maior concentração de renováveis, concentrou 75% das horas cortadas. Em dezembro de 2024, os cortes chegaram a representar 17,8% da geração eólica potencial em um único mês.

 

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O que Helm chamou de “o erro clássico”

A crítica central de The Carbon Crunch é direta: instalar mais capacidade renovável, por si só, não resolve o problema do setor elétrico. A intermitência precisa ser gerida. O valor da energia depende do momento em que ela está disponível, não apenas da sua origem.

Sistemas elétricos são complexos. Sem inteligência operacional, dados em tempo real, previsão de geração e consumo, ferramentas que as equipes realmente usam a expansão de ativos cria novas ineficiências ao invés de resolver as antigas.

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Fonte: ANEEL, ONS, EPE BEN 2025. Capacidade = soma solar fotovoltaica + eólica centralizada.

 

Três lições do livro que se aplicam ao Brasil hoje

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O subinvestimento que ninguém fala

O setor elétrico brasileiro historicamente investiu pesado em ativos físicos: obras, linhas de transmissão e turbinas. O subinvestimento em software, integração de dados e ferramentas operacionais é estrutural e raramente aparece nos debates sobre transição energética.

O resultado é um paradoxo frequente: muito gasto em desenvolvimento, pouca adoção prática. Sistemas implementados que não são utilizados. Dados gerados que não viram decisão.

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Fonte: Volt Robotics, ONS (2024). Total: 400 mil horas de cortes em 1.445 usinas.

 

O próximo passo da transição não é mais uma usina

Eólica e solar já representam 23,7% da geração total de eletricidade no país. A capacidade vai continuar crescendo. Mas o aproveitamento real dessa geração depende de algo diferente: da capacidade de entender, prever e coordenar o sistema em tempo real.

É aqui que a transição energética pode travar  ou acelerar.

A Diel nasceu exatamente dessa constatação. O setor precisa de soluções que as equipes realmente usam, que integrem dados de mercado, operação e regulação, e que transformem informação em ação, não em mais relatórios.

The Carbon Crunch continua atual porque nos lembra que a verdadeira inovação do setor elétrico acontece quando dados viram decisão, e decisão vira eficiência.

O Brasil não precisa apenas de mais energia renovável. Precisa de melhor uso da energia que já tem.

Fontes: ANEEL, ONS, EPE (BEN 2025), Volt Robotics, Instituto Acende Brasil, Absolar. Dados referentes ao ano-base 2024.

Quem escreveu:

Márcio Moura de Mattos executivo do setor de energia e atua na interseção entre estratégia comercial, inovação e transição energética. Com trajetória em empresas nacionais e multinacionais, desenvolve negócios e soluções voltadas à geração distribuída, eficiência, armazenamento e novos modelos comerciais para o mercado elétrico brasileiro. Engenheiro eletricista pela UFRGS, possui MBA pela FGV e formação em Project Management pela University of La Verne.

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